segunda-feira, 21 de junho de 2010

visita ao psiquiatra II

Às 17h45min entrei naquela clínica. Estava meio triste, como de costume. Sentia-me angustiada pela burocracia que vinha enfrentando nos últimos dias.


Pedi à recepcionista que marcasse uma consulta no doutor fulano de tal. Ela, então, marcou...

O tempo foi passando e, confesso, estava quase chorando com aquela situação que, para mim, era humilhante.

Olhei em volta e percebi que, pela hora, eu era a última paciente daquele lugar.

Foi então que uma senhora, no alto dos seus pouco mais de 150 centímetros, passou por mim cantando:

-eu preciso dé ti, ó paaaí... eu preciso dé ti, senhôoo...

Senti vontade de sorrir, mas me contive. Ainda pude ouvir a atendente dizendo àquela mulher baixinha:

-fulana, nós ainda estamos com paciente!

A senhora respondeu:

-oh, me desculpe moça, é que a gente tem que ser alegre sempre e, eu sou assim. Não sou do tipo que fica chorando pelos cantos. Tem gente que fica até doida só de pensar nos “pobrema”, mas eu não gosto de ser assim. Minha força vem deus.

Terminou seu pequeno discurso com uma frase ‘pronta’.

Fiquei meio sem jeito, mas sorri ‘amareladamente’ e disse que estava tudo bem.

20min de espera... Silêncio total na clínica e, o telefone toca:

-alô!? Diz a recepcionista olhando fixamente para mim e continua...

-sim... certo... só tem uma... sim... sim, senhor, sim... o senhor... ok. Desligou a telefona ainda olhando nos meus olhos e disse:

-senhora, o doutor fulano de tal chegará em 15 mim.

Agradeci e procurei algumas revistas para passar o tempo.

Passados os 15 mim, chega o doutor acompanhado de uma senhora, digamos, excêntrica.

A senhora senta ao meu lado e não diz uma palavra sequer. Minha curiosidade foi tanta, que larguei a revista discretamente e comecei a dar uma olhada disfarçada para aquela figura.

A “perua” vestia uma blusa de cetim, estampada com um pavão com a calda aberta, como quando o animal está atrás da fêmea no cio. No pescoço, três colares: um escapulário dourado, um colar de pérolas e uma corrente dourada cuja ponta prendia a letra K, rodeada de pedras brilhantes. A calça era jeans e estava bem apertada. Nos pés, um par de sandálias com um salto de, no mínimo, 15 cm, na cor vermelha ‘sangue-fraco’ e um botão dourado na frente.

Perdi-me em meus pensamentos e quase tive vontade de rir, mas ouvi uma voz dizendo:

-senhora carpideira, consultório 05, por favor.

Agradeci e me dirigi à sala.

Ao entrar, encontro novamente um senhor lendo freneticamente meu prontuário. Ele me pediu para sentar, e eu o obedeci.

Silêncio...

Então, o médico falou:

-diga, senhora....

-carpideira de tal, completei.

-sim, carpideira, fale!

-doutor, o clínico geral me deu um atestado para readaptação da minha antiga função , mas a junta médica não aceitou, então, gostaria que o senhor refizesse o documento, já que é psiquiatra.

-claro, mas, primeiro vamos fazer um teste psicotécnico, quero saber se você precisa mesmo mudar de função.

-mas doutor, eu trabalho com crianças, é muito estressante.

-certo, certo... vou fazer uns traços e você vai cobri-los com a mão direita, depois com a mão esquerda e, por último, com as duas mãos.

Aceitei sem reclamar. O doutor me deu um papel com uns traços que pareciam uma estrela incompleta. Comecei a cobrir da forma como havia sido instruída.

Ao terminar o teste, o doutor olhou por alguns instantes e falou:

-carpideira, realmente, você ñ tem condições de trabalhar assim, está muito tensa e insegura. Olha, se fosse um teste do ‘DETRAN’, você seria reprovada. Se fosse um teste para concurso público, você seria reprovada também. Se eu fosse lhe contratar para um emprego, não lhe contrataria.

-mas, doutor, é tão grave assim? Eu ñ agüento mais....

-não se preocupe, vou refazer o documento pedindo o afastamento da sua função e vou lhe dar mais 60 dias de licença médica. Volte quando os remédios acabarem.

Levantou-se apressado da sala e saiu dizendo:

-vamos, querida, que já é tarde e a vida não pode esperar.

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