segunda-feira, 22 de junho de 2009

Herança de família.


Hoje meu namorado me questionou o motivo pelo qual eu sempre estou pedindo permissão para visitá-lo.
Isto é bem antigo.
Este sentimento de presença indesejada não é de hoje, nem nasceu com a nossa relação.
Pelo que me lembro, percebi que sempre estou pedindo permissão para visitar meus amigos. Na adolescência foi assim também, quando comecei a me relacionar melhor com as outras pessoas e a ter um pequeno círculo de amizade.
Durante a psicoterapia, entre os anos de 1995 e 1999, eu pude reviver meu passado e entender melhor o presente. Foi em uma das sessões de terapia em grupo que, talvez, isso se explica.
Nós estávamos falando do nosso nascimento, das expectativas dos familiares com a vinda de mais uma criança. Mas, que expectativas foram estas? A palavra família existia para mim? Acho que não.
Em toda a minha infância sempre ouvi minha mãe falar que meu pai não quis me ver assim que eu nasci, porque não queria mais um filho, não queria ser responsável por alguém quando ele mesmo já não tinha expectativa de vida. Lembro-me bem das palavras:
-não quero ver merda de menina nenhuma, nem minha filha ela é.
Dizia a minha mãe repetindo - mais uma vez – aquelas secas palavras.
Com a minha genitora não foi diferente. Inocentemente, talvez, ela repetia as mesmas coisas desde que eu nasci:
-eu queria um menino e, quando soube que era uma menina, não estava tão decepcionada o quanto fiquei ao ver aquele bebê magro, pequeno e feio. Eu queria um menino forte e grande. Até briguei com o médico dizendo que tinham trocado meu filho.
Falava ainda com um pequeno sorriso nos lábios.
Eu ficava arrasada com aquelas histórias, chorava escondido por noites e noites. Depois de um tempo eu me acostumei com esse vazio, essa rejeição.
Agora só ficou a lembrança de que fui rejeitada como mulher e como filha pelos meus pais. E, deve ser por isso, que sempre me vem esse sentimento de que minha presença é indesejada.
Peço perdão pela minha fraqueza, ao menos reconheço que é uma falha minha, embora não saiba ter outros pensamentos mais amistosos.
Também culpo meus pais, por terem sido tão cruéis comigo, por terem me deixado esse sentimento de culpa e inferioridade como minha maior herança.

Um comentário:

yolanda disse...

Ai, amiga, essas coisas levam uma vida para superar - se for possível.
Mas, veja só: a gente não tem culpa de nada disso; então, por que levar a vida com essa culpa, esses sentimentos que só magoam?
Na verdade, só podemos ter pena de quem tem uma filha como vc e não soube sentir, reconhecer isso. Coitados dos teus pais! Não de vc.
Vc ñ precisa levar sua vida com isso. Joga tudo isso fora, Bel... a vida que a gente tem é o que a gente leva.
E a gente só tem essa, e é pra ser feliz =)

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